Cine Direito: quatro abordagens distintas
sobre experiências no Timor-Leste
Por causa do sucesso de público e excelentes comentários,
ESMP estuda levar o evento às regionais
A Escola Superior do Ministério
Público poderá levar até as regionais a sessão
do Cine Direito apresentada no último dia 18, no auditório
Dr. Antonio Alvarenga Neto, do Fórum da Barra Funda, caso
haja interesse dos promotores de Justiça que atuam no Interior.
O evento cultural se justifica não somente pelo conteúdo
do documentário Timor-Leste: O massacre que o mundo não
viu, produzido e dirigido por Lucélia Santos, como - e
principalmente - pelos relatos dos três integrantes do Ministério
Público paulista que, em momentos diferentes, fizeram parte
da reestruturação da Justiça e da hoje República
Democrática de Timor-Leste. Não bastassem essas
razões, há ainda a exposição fotográfica
com os registros feitos pelos promotores de Justiça.
Desde que estiveram em Timor-Leste, a procuradora de Justiça
Eloísa de Sousa Arruda (de 1º/8/01 a 1º/2/02
e de 8/11/03 a 25/11/03), o promotor de Justiça de Taubaté
Antonio Carlos Ozório Nunes (de ago/05 a set/06) e o promotor
de Justiça da Capital Flávio Farinazzo Lorza (de
set/06 a ago/07) não tinham tido a possibilidade de transmitir
as experiências profissional e pessoal vivenciadas naquele
país.
Na última quarta-feira, cerca de 70 pessoas entre procuradores,
promotores, estagiários e estudantes de Direito, das 17
às 21 horas, pararam para saber mais sobre esse povo sofrido
e guerreiro, no encontro organizado pela ESMP. Antes da apresentação
do documentário, o diretor da ESMP Mário de Magalhães
Papaterra Limongi se dizia satisfeito com a volta do Cine Direito
e com experiência compartilhada. Ao término, disse
Papaterra, “a instituição autorizou seus integrantes
a participarem dessa experiência e até hoje eles
não puderam tinham tido a oportunidade de compartilhar
o que transmitiram e o que aprenderam. Não é qualquer
instituição que tem integrantes com experiências
tão ricas, como as que ouvimos, na reconstrução
de um país”.
Cada um dos integrantes do MP paulista encontrou o Timor em situação
adversa depois de muitos ataques sistematáticos e generalizados,
mas os três são unânimes na definição
de seu povo e concordam com a expressão utilizada por Xalana
Gusmão (primeiro presidente de Timor-Leste pós independência
e hoje primeiro-ministro). “A Indonésia não
só violou nossa cidadania como roubou a nossa alma.”
Mesmo sem alma, esse provo “corojoso, esperançoso,
guerreiro, que perdoa com facilidade e tem enorme capacidade em
se reerguer”, como define o promotor Ozório, precisava
de instrumentos jurídicos e, especialmente, de quem os
aplicasse depois de uma ‘guerra de praticamente 24 anos’.
A procuradora Eloísa de Sousa Arruda, a primeira a pisar
em Timor, “que ainda cheirava cinza”, trabalhou com
o painel de crimes graves e se orgulha de ao dizer que viu nascer
a primeira nação deste milênio. “Eu
estava lá”, disse ela que conheceu de perto o trabalho
do também brasileiro Sérgio Viera de Mello, então
administrador transitório da ONU no Timor. O promotor Osório
relatou que não foram fáceis os momentos vividos
no Timor, mas pretende, depois de aposentado, dedicar-se ao trabalho
voluntário no país que muito o ensinou. Dos três,
foi Flávio Farinazzo Lorza quem esteve em Timor ‘na
melhor época’. Ele participou da segunda fase do
Projeto de Apoio ao Fortalecimento do Sistema de Justiça
de Timor-Leste, estabelecido por força de acordo de cooperação
firmado entre os governos brasileiro e timorense, sob a coordenação
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
- PNUD, no período de setembro de 2006 a agosto de 2007.
“Entre outras funções, minha atuação
consistiu no treinamento de promotores de Justiça que faziam
parte da primeira turma do primeiro curso de formação
do primeiro governo constitucional de Timor-Leste independente”,
disse.
Heterogeneidade étnico-cultural, duas línguas oficiais,
vários dialectos, diferentes estilos arquitetônicos,
número de habitantes, extensão territorial, analfabetismo
generalizado, distância que Timor tem dos continentes sul-americanos,
nada impediu nem desestimulou os promotores de São Paulo
a exercerem full time as funções ministeriais em
solos timoresnes. Eles levaram ao pé da letra a frase do
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo (bispo católico-romano),
que junto a José Ramos Horta (jurista timorense e atual
presidente) recebeu, em 1996, o prêmio Nobel da Paz. “O
futuro constrói-se à mão, artesanalmente,
não cai do céu.”
A exposição fotográfica
permanece até o dia 30 no Fórum da Barra Funda (Avenida
Abraão Ribeiro, 313) – São Paulo/SP